Reserva ovariana baixa e ovodoação: o que toda paciente deveria saber antes de decidir

Quando se fala em fertilidade, um dos conceitos mais mencionados — e, ao mesmo tempo, menos compreendidos por muitas mulheres — é o de reserva ovariana. Esse termo desperta diversas inquietações, desde dúvidas sobre o seu significado até receios sobre o que ele representa para a possibilidade de engravidar. Por isso, antes de tomar decisões importantes, é fundamental entender o que é a reserva ovariana, como ela é avaliada e por que é essencial para planejar um tratamento reprodutivo realista e personalizado.

Em muitos casos, uma reserva ovariana baixa levanta a pergunta: a ovodoação é o único caminho? A resposta curta é não. Mas, para compreender o porquê, é preciso aprofundar um pouco mais no tema.

Quando a reserva ovariana é considerada baixa? Ela pode ser “melhorada”?

A reserva ovariana corresponde à quantidade de óvulos disponíveis nos ovários de uma mulher em determinado momento. Desde o nascimento, as mulheres já nascem com um número limitado de óvulos, que diminui ao longo da vida. A cada mês, o ovário seleciona um grupo de óvulos para amadurecer; desse grupo, um ovula e os demais são perdidos. Ou seja, a reserva ovariana é um recurso finito que não pode ser regenerado.

Portanto, a baixa reserva ovariana não pode ser “melhorada” em termos absolutos. No entanto, isso não significa que não haja o que fazer. Existem estratégias médicas personalizadas para otimizar a estimulação ovariana, evitar que a queda da reserva se acelere desnecessariamente, ajustar suplementos e tomar decisões reprodutivas no momento adequado. A chave está em agir precocemente, com orientação especializada. O objetivo não é “aumentar” a reserva, mas gerenciar e otimizar o uso dos óvulos disponíveis.

Uma reserva baixa sempre significa dificuldade para engravidar com óvulos próprios?

Não necessariamente. Ter uma reserva ovariana baixa não significa automaticamente que será difícil engravidar com os próprios óvulos. A baixa reserva indica que há menos óvulos disponíveis, mas isso não impede a possibilidade de gravidez, inclusive de forma espontânea.

É verdade que, com reserva reduzida, o tempo se torna um fator mais sensível, por isso é recomendável planejar e não adiar decisões importantes. Muitas mulheres com baixa reserva conseguem engravidar tanto naturalmente quanto por meio de tratamentos de fertilidade. Ainda assim, as taxas de sucesso podem ser menores e, em alguns casos, podem ser necessários vários ciclos para obter um número adequado de óvulos ou alcançar um desenvolvimento oocitário que aumente as chances de sucesso.

Também é importante considerar que a idade influencia diretamente a qualidade dos óvulos. Assim, mesmo com uma quantidade limitada, se os óvulos forem de boa qualidade, as chances de gravidez podem permanecer relativamente altas.

Como a idade influencia a qualidade dos óvulos em pacientes com reserva reduzida?

Com o avanço da idade, não apenas a quantidade de óvulos diminui, mas também a sua qualidade. A partir dos 35 anos, os óvulos têm maior probabilidade de apresentar alterações cromossômicas, o que pode impactar a implantação embrionária e aumentar o risco de perdas gestacionais.

O que surpreende muitas pacientes é que idade e reserva ovariana nem sempre caminham juntas. Uma mulher jovem pode ter poucos óvulos, mas de boa qualidade. Já após os 38 – 40 anos, mesmo uma mulher com reserva aparentemente normal pode enfrentar dificuldades relacionadas à qualidade oocitária.

Por isso, embora a quantidade seja importante, a qualidade dos óvulos é um fator central no planejamento reprodutivo. Ao decidir quando tentar engravidar ou iniciar um tratamento, idade e qualidade oocitária têm um papel decisivo.

Quais são as situações clínicas mais comuns que levam à indicação de ovodoação em pacientes com baixa reserva?

A ovodoação é considerada quando a reserva ovariana está muito comprometida e os tratamentos com óvulos próprios não oferecem as chances de gravidez esperadas.

É importante deixar claro que essa não é uma decisão automática. A ovodoação é avaliada com base em evidências médicas, diálogo com a paciente e um acompanhamento emocional adequado.

Ela costuma ser proposta nos seguintes casos:

• Resposta muito baixa a múltiplas estimulações ovarianas.
 • Ausência de embriões evolutivos.
 • Falhas repetidas em tratamentos de fertilização in vitro (FIV).
 • Qualidade embrionária persistentemente limitada.
 • Pacientes acima de 42 – 43 anos, quando os tratamentos com óvulos próprios não oferecem uma probabilidade razoável de sucesso.
 • Situações em que o tempo é um fator crítico e se busca uma alternativa com maiores chances de êxito.

É fundamental compreender que a ovodoação não é imposta. Ela é apresentada como uma opção respeitosa, considerando os desejos, a história e o momento de cada paciente.

O que pesa mais na decisão pela ovodoação: quantidade ou qualidade dos óvulos?

Ambos os fatores são importantes, mas a qualidade dos óvulos tende a ser mais determinante na decisão de considerar a ovodoação.

É possível obter poucos óvulos e, ainda assim, formar um embrião saudável. Por outro lado, uma boa quantidade de óvulos sem qualidade adequada não garante, necessariamente, uma gravidez. A quantidade orienta; a qualidade define.

A combinação desses fatores, somada à idade da paciente e à resposta prévia aos tratamentos, é o que ajuda a decidir se vale a pena continuar tentando com óvulos próprios ou se a ovodoação representa a melhor alternativa.

Quais taxas de sucesso podem ser esperadas com ovodoação em comparação aos óvulos próprios?

Em pacientes com baixa reserva ovariana ou idade avançada, a ovodoação oferece taxas de sucesso significativamente mais altas do que os tratamentos com óvulos próprios. As taxas de sucesso com óvulos próprios diminuem progressivamente com a idade, enquanto na ovodoação elas permanecem elevadas, já que os óvulos são provenientes de doadoras jovens, com boa qualidade oocitária.

Por isso, a ovodoação não deve ser vista como o fim do caminho, mas como uma nova porta para a maternidade quando as chances com óvulos próprios se tornam muito limitadas.

Falar sobre reserva ovariana e ovodoação vai além dos aspectos médicos. Trata-se também de decisões pessoais, de tempo e de desejos profundos. Informação clara é essencial para escolhas conscientes, enquanto o acolhimento emocional é fundamental para sustentar as pacientes ao longo do processo. Um plano médico personalizado pode abrir muitas possibilidades, mesmo quando o caminho parece incerto.

A baixa reserva ovariana não representa o fim da história reprodutiva de uma mulher. É apenas um dado que convida a repensar o percurso e a escolher, com acompanhamento profissional, a melhor estratégia disponível. O mais importante não é quantos óvulos restam, mas como construir possibilidades reais com o que se tem hoje. Com uma abordagem humana, honesta e personalizada, sempre existem caminhos que podem se abrir.

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